Tenho um problema com o meu próprio sangue: quando me vejo sangrando – geralmente após um corte ou uma bala perdida – costumo passar mal.
Cai a pressão e me sinto como se estivesse prestes a desmaiar. Descobri que isso é mais comum do que eu imaginava, mas, por mais comum que seja, esse tipo de reação tem o potencial de causar constrangimentos memoráveis, como é o caso do relato a seguir.
Faz um tempo já, desci até a garagem do prédio com pressa para não chegar atrasado ao trabalho. Ao descobrir que o carro não ligava, decidi ir trabalhar de taxi e saí enfurecido pela recepção do prédio.
Claro que, nestes casos, o que a gente considera ser um acesso de ira capaz de gelar a espinha de quem tem o infortúnio de cruzar pelo nosso caminho, na realidade é visto por todo mundo com um desagradável misto de dó e inconformismo, geralmente acompanhado por frases do tipo “que cara estressadinho”.
Imagino ter sido este o caso do meu porteiro, que me assistiu passar pela recepção num rompante de fúria, abrir o portão com violência e fechá-lo com toda a força atrás de mim.
O que deve ter tornado o espetáculo ainda mais pitoresco foi o fato de eu ter fechado o portão ANTES de meu pé ter passado pelo vão, o que acabou me fazendo soltar um urro de dor enquanto o portão de metal esmagava meu tornozelo.
Tentando manter a dignidade, continuei pelo meu caminho mancando, enfurecido, fingindo que nada havia acontecido.
Mas logo senti a inconfundível sensação de sangue se alastrando pelo peito do meu pé e percebi que teria que voltar para casa.
Passei humilhado pelo porteiro, que não emitiu uma única palavra, e abri a porta de casa bem no instante que sentia minha pressão cair e um terrível mal estar se manifestando.
De pé na cozinha, comecei a sentir um calor imenso e instintivamente tirei a camisa, na ânsia de que isso me refrescasse um pouco. Aí, com medo de que um eventual desmaio me fizesse bater a cabeça numa quina de mesa, sentei no piso da cozinha.
Aí, percebendo que o sangue poderia vir a manchar minha calça, achei prudente tirá-la. Com dificuldade, consegui, e o mal estar ficava cada vez pior.
Chamei pela Carla com a força que me restava e deitei no chão para ver se a tontura passava. Um instante depois, a Carla entrava na cozinha para saber o que eu queria.
E me encontrou deitado no gélido piso da cozinha, gemendo, só de cueca e com o pé todo vermelho de sangue.
Há meros 5 minutos, ela havia me visto sair pela porta de casa rumo ao trabalho, e agora me encontrava assim, semi-nu e ensanguentado, no chão da cozinha.
Daria uma pequena fortuna para saber o que se passou na cabeça dela nos breves instantes entre ela me descobrir naquele estado lastimável e entender o que de fato havia acontecido, mas ela não se lembra.
Fomos ao pronto-socorro e hoje nem consigo encontrar a cicatriz que ganhei naquele dia. Por outro lado, infelizmente sei que o que a Carla viu ao entrar na cozinha ficará marcada na sua memória para todo o sempre.
(postado originalmente em 14/12/2010)

Eu chorei de rir a primeira vez que ouvi essa história e chorei de rir relendo agora também. A Carla é minha heroína! Esperando ansiosamente pela história da corrida até o helicóptero... :) Beijos!
ResponderExcluirEssa história não é única na vida deste ser incrível (no sentido de ser não possível de existir).
ResponderExcluirEm um episódio clássico da minha juventude, assisti enquanto ele, por alguma razão que minha memória falha em lembrar, decidiu cortar um limão ao meio.
A cozinha, um mix de cozinha e copa, tinha um armário q separava os dois ambientes, eis que entra o magnânimo, com toda pompra de um lorde inglês. Ele pega um limão, vasculha as gavetas a procura de uma faca. Sendo canhoto, por alguma razão peculiar, ele decide cortar o limão, segurando-o por cima, como se quisesse comprimi-lo contra a pia com a palma da mão esquera, e suavemente passa a faca serrilhada da tramontina, com cabo de madeira, sobre a superfice quase oculta do limão. A faca, inevitávelmente fura a sua mão, num moment incalculado e e um pouco suspeito. Ao olhar aquela pequena gota (um furo não muito maior que o furo de uma agulha), o , então jovem cavalheiro, fica pálido, exibe sinais de tontura, e fraqueza nos membros inferiores. Num súbito ato de bravura, premonição e bom senso, puxo uma das cadeiras da copa, apenas para, no milionésimo de um segundo antes, conseguir impedir que ele caisse ao achão feito um saco de esterco.
O jovem cavlheiro, cai sentado na cadeiras... pálido como se estivesse morto ou esanguinado...
Tudo por conta de um pequeno furo, não maior que meio mm de tamanho.