7 de fev. de 2014

PERDIDO NA GROENLÂNDIA

 
"Oi Zé, tô quase chegando, não tô mais, tô quase chegando, não tô mais, 
tô quase chegando, não tô mais, tô quase chegando, não tô mais, 
tô quase chegando, não tô mais... 



Nada mais natural do que você se sentir meio perdido em um local que não conhece. Tipo no meio da Groenlândia, por exemplo. Por outro lado, a sociedade tende a condenar pessoas que se perdem em locais que elas passam todos os dias durante uma década, ainda mais quando o local em questão fica a quadras da sua casa. Tipo a Rua Groenlândia, no bairro dos Jardins em São Paulo.

Evidentemente, não me enquadro no primeiro tipo de pessoa, visto que nunca fui – e confesso que acho muito improvável que algum dia eu vá – para a Groenlândia. Mas eu de fato morava no Itaim Bibi, praticamente numa travessa da Av. Nove de Julho, que é perpendicular à Rua Groenlândia, e pegávamos essa rua diariamente no caminho de volta da escola. 

Eis que um dia, meu amigo Joe Matthews, que para preservar sua identidade será chamado de Zé neste relato, me convidou para passar o sábado na casa dele.
O Zé morava numa travessa da Rua Groenlândia, e eu já havia ido várias vezes à casa dele de carro (como passageiro, claro, porque era época de escola ainda). Comentei com minha mãe e ela me perguntou se eu queria uma carona até lá, mas como tratavam-se de poucas quadras, achei que seria ridículo fazer com que ela tirasse o carro da garagem só para isso. 

“Relax! Eu vou a pé! É pertinho.”

Talvez por me conhecer desde antes que eu nascesse e ter se dado conta de que eu só consegui achar a saída de sua barriga com a providencial ajuda de uma cesariana, ela decidiu confirmar se eu conseguiria mesmo chegar lá.

“OK, mas você sabe como ir, né? É assim... você entra à direita na 9 de Julho e segue sempre em frente até chegar na Groenlândia. Aí entra à esquerda nela e segue até ver a casa do Zé naquela travessa à direita.”

Evidentemente, eu recebi essa informação com suspiros de impaciência, porque não acreditava que minha mãe pudesse ainda achar que eu seria suficientemente burro para errar um caminho simples desses. 

Claro que, na cabeça dela, é provável que estivesse rodando um filme de quando eu tinha 5 anos e ela me chamou na sala e disse:
“Vladik! (era meu apelido quando criança) Corre lá no seu quarto para ver se o Vladik tá dormindo!”
Diz ela que eu saí correndo e voltei com um olhar perturbado, dizendo “Não... não tem ninguém lá...”
“Não?! Mas são 9 horas da noite! Você sabe que o horário de dormir é 9 horas, não sabe?”
“Sim!”
“Então o Vladik deveria estar dormindo! Se ele não está na cama dele, cadê o Vladik?!”
“Sim! Cadê Adik?! CADÊ?!”
Diz ela que fiz um olhar de pânico, olhei ao redor num estado de terror e desespero, e ela não teve outra alternativa senão me confortar, explicando pacientemente que o fato de eu não estar na cama dormindo era porque eu estava lá na sala, conversando com ela. E depois disso acho que ela me colocou na cama e foi chorar de desgosto com meu pai no quarto deles.

Ou seja, com um histórico intelectual desses, acho que é até justificável que ela não ficasse 100% segura de que eu conseguiria fazer um percursinho de 1,2km, mesmo com o percursinho em questão sendo uma simples sucessão de duas retas. E, como costuma ser o caso quando se trata de mães, ela tinha razão. 

Saí pela porta de casa sábado de manhã após ter ligado para o Zé, informando que logo estaria na casa dele (na época ainda não existiam celulares). Andei até a Av. 9 de Julho, seguindo minuciosamente as instruções de minha GPS materna. Até ter uma ideia melhor, claro. 

Pensei comigo mesmo: “Peraí... por que ir ATÉ o começo da Groenlândia quando posso pegar um ATALHO por uma destas ruazinhas aqui e chegar lá muito mais rápido?”

E foi o que fiz. Atravessei a avenida e entrei por uma ruazinha que CERTAMENTE iria sair na Groenlândia. Talvez o primeiro indício de que talvez essa jornada não terminaria tão bem quanto eu imaginava foi o fato de que a ruazinha não era bem uma “ruazinha”, mas uma rua aparentemente interminável que ia cada vez mais para a esquerda. 

“Isso não pode ser bom. Se continuar indo pra esquerda, vou acabar voltando pra 9 de Julho, só que lá pra trás. Preciso corrigir a rota.”

Então peguei a próxima rua que cruzava e entrei à direita – uma outra rua comprida e curva. Comecei a me perguntar se talvez não seria mais inteligente eu parar tudo e voltar até a 9 de julho para começar tudo de novo. Mas decidi que não. Na pior hipótese, eu estava me aproximando da Groenlândia – mesmo que BEM lentamente – e então segui em frente. Não sei quantas vezes ainda “corrigi a rota” no meio dos Jardins, mas uma hora me encontrei numa rua grande e larga, com um je ne sais quoi  familiar. Li a placa e vi “Rua Groenlândia”, o que imediatamente me tranquilizou. E, com a mesma velocidade com que apareceu, essa tranquilidade se dissipou quando me perguntei “Mas e agora? Pra que lado vou?”

Pela quantidade de esquerdas e direitas que eu tinha dobrado no miolo entre a 9 de Julho e a Groenlândia, eu poderia estar em praticamente qualquer altura da rua – perto da Rebouças, perto da 9 de Julho, até mesmo perto de Osasco, vai saber.  Então decidi seguir meu instinto e ir para a esquerda. 

Andei, andei, andei e andei até chegar em uma avenida grande e movimentada. Li a placa e vi que havia chegado na Av. Rebouças, o que apenas corroborou a ideia de que nunca deve-se confiar no seu instinto, especialmente quando se é eu. Então dei meia-volta e fui na direção contrária. Andei, andei, andei... e de repente me vi na Av. Europa. Por algum motivo, isso me confundiu, porque eu não sabia se a avenida ficava antes ou depois da casa do Zé. Se fosse antes, eu teria que andar mais, mas e se fosse depois? Teria eu passado pela casa dele e não percebido?

Decidi arriscar e seguir adiante. E de repente me vi na 9 de Julho. “Droga! Então passei a casa dele. Vou ter que voltar”. 

Então me virei e voltei por onde eu tinha vindo. Talvez por estar indo na direção oposta à que fazíamos de carro voltando da escola, nada me parecia familiar. E o resultado é que cheguei novamente na Rebouças. Parei na esquina da avenida e urrei com os punhos cerrados: “Não! Não é possível!” 

E aí bateu o desespero. Eu havia andado um tempão pelo tortuoso miolo dos Jardins e depois caminhado quase 4km pela Groenlândia. Não sei quanto tempo isso levou, mas parecia uma eternidade desde que eu tinha saído de casa. E o Zé seria bem capaz de ligar para a minha casa para saber onde eu estava, se eu havia me atrasado ou algo assim, o que provavelmente causaria um infarto na minha mãe ao deduzir que algo de grave tinha acontecido comigo – algum sequestro, acidente, combustão instantânea, etc. (lembrem-se que não havia celular na época). 

Percebi que eu não tinha mais tempo a perder. E comecei a correr na direção da qual havia vindo. Corri o mais rápido que pude pela Groenlândia, tentando pescar algum ponto de referência reconhecível, mas dar um sprint enquanto você evita atropelar pedestres e postes não é a maneira mais eficiente de prestar atenção no cenário à sua volta. E, como resultado, me vi novamente na 9 de Julho. 

Mas aí surgiu uma dúvida: será que eu estava do lado CERTO da 9 de Julho? Ou teria eu que seguir adiante? Evidentemente, a mera hipótese de eu estar do lado ERRADO da 9 de Julho não fazia o menor sentido, porque eu só havia atravessado a avenida uma única vez, lá no começo da viagem. Mas, SÓ PRA DESENCARGO DE CONSCIÊNCIA, decidi arriscar mais algumas quadras depois de atravessar a avenida até chegar na Brigadeiro Luiz Antônio. E aí vi que teria que dar meia-volta e ir na direção contrária de novo. 

Talvez por burrice – na verdade CERTAMENTE por burrice – acho que procurei pelo portão do Zé na própria Groenlândia, ignorando o fato de que ele morava numa travessa, e não na rua em si. E o resultado disso foi que eu me vi novamente chegando na Rebouças.

Àquela altura, eu não sabia mais o que fazer para encontrar a casa do Zé, mas eu sabia que, se por algum motivo eu estava indo na direção errada, era muito mais INTELIGENTE chegar até o lugar errado rápido, porque aí eu demoraria menos tempo até ter uma oportunidade de tentar achar o caminho CERTO. 

E então minha estratégia foi essencialmente a seguinte: correr o mais rápido possível até encontrar ou a Rebouças ou a 9 de Julho, dar meia volta e correr o mais rápido possível na direção contrária. De novo e de novo e de novo, costurando de maneira totalmente inadequada pelos pedestres que ali transitavam e levantando minhas mãos para os céus enquanto urrava enfurecido por eles não saírem suficientemente rápido da minha frente. 

Aliás, fico pensando no que esses pedestres, que caminhavam calmamente pela rua num sábado de manhã, estavam pensando sobre o que eu estava fazendo. Porque definitivamente eles me viam passar, correndo e gritando, até sumir no horizonte. Minutos depois, lá vinha eu correndo e gritando em sua direção de novo, com o rosto vermelho e os olhos cheios de ira e desespero. E eu passava por eles e sumia de novo. E depois passava correndo e gritando por eles de novo. Confesso que até hoje acho incrível que ninguém tenha me perguntado o que estava acontecendo. 

Mas aí, quando finalmente comecei a contemplar a hipótese de desistir e voltar para casa, ouvi os gritos desesperados de uma mulher, correndo atrás de mim: “VLAD! VLAD! PARA! PARA!!”
Era a mãe do Zé, que estava na cozinha e, sem querer, havia visto pela janela um rapaz parecido com o amigo do filho dela correndo lá na Rua Groenlândia. Ela deve ter achado estranho, mas seguiu com o que quer que estava fazendo, até ver, de novo, o mesmo carinha correndo na direção oposta. Intrigada, ela ficou de olho e ZUM, lá ia o cara de novo. Nisso, ela perguntou ao Zé se ele estava esperando por alguém e ele respondeu que sim, e que eu já deveria ter chegado há horas. Assim, da próxima vez que passei voando pela rua, ela foi correndo atrás, e conseguiu me interceptar. 

Dentro da casa, comigo vermelho, pingando de suor, ofegante e com o coração batendo tão rápido que a pulsação mais parecia um zumbido constante, o Zé me perguntou “Mas não entendi... se você estava perdido, por que simplesmente não parou num orelhão e ligou para cá ou para sua mãe?”

Imagino que dei a ele o mesmo olhar vago que dei à minha mãe quando ela me perguntou onde estava o Vladik que não estava dormindo na cama. 

E respondi “Porque se eu parasse pra fazer isso, eu iria perder tempo.”


NOTA DO AUTOR: A reação de todo mundo que ouve esta história é igual: “NOSSA! NÃO ACREDITO! COMO VOCÊ É BURRO!”. Mas quando é o Tom Hanks correndo de um lado dos EUA até o outro durante anos, o cara é um gênio e o filme ganha 6 Oscars. Pois é... dois pesos, duas medidas.

Um comentário:

  1. Cara...
    Conhecendo você... Não é possível que você tenha corrido tantas vezes da Rebouças até a 9 de Julho... Você deve ter caminhado lentamente, vermelho, com aquela VEÍNHA ESTÚPIDA saltando... No máximo com alguns rápidos e curtos surtos de quase corrida...

    ResponderExcluir