"Olha! Aquele saco tá vazio, mas continua de pé!"
"Ah sim, é que não é um saco de batatas."
"Ah sim, é que não é um saco de batatas."
"Ah é, tá explicado."
Nascida em uma área de ocupação francesa em Xangai, na China, para depois passar a infância na Indonésia, a adolescência no colégio britânico em São Paulo e com passagens por Londres e Bogotá, na Colômbia, onde trabalhou em um restaurante russo, minha mãe é uma espécie de personificação humana da ONU.
Essa mistura de países, experiências e histórias rendeu à minha mãe uma
bagagem cultural muito interessante, mas mais do que isso, deu a ela o que eu
considero ser uma de suas facetas mais identificáveis: um acervo de ditos
populares (ou, para ser mais preciso, “ditos populares” entre aspas).
Como criança, nunca vi nada de errado nos ditados que minha mãe entoava
pela casa, e até replicava eles na escola, como pequenas pérolas de sabedoria
em meio a colegas boquiabertos. Foi só aos poucos que comecei a desconfiar que
talvez meus amigos não estivessem boquiabertos pelo poder e grandiloquência das
expressões que eu proferia, mas sim pela completa falta de entendimento do que
eu estava tentando dizer com aquilo.
Hoje entendo que essa exposição a tantas culturas em um momento de
formação levou minha mãe a fazer uma salada com várias expressões, frases
soltas e provérbios que ela foi angariando ao longo do tempo, e isso acabou
gerando ditados verdadeiramente únicos.
É claro que exemplificar é mais fácil do que explicar, então decidi
compartilhar aqui alguns exemplos dessas frases que eu e meus irmãos aprendemos
quando crianças e que definitivamente devem ter tido um papel fundamental no desenvolvimento
de nossa moral e caráter ao longo dos anos.
Você foi e eu voltei com milho
Essa significa que, enquanto você está pensando no que fazer, eu já
cheguei com a solução. Acredito que essa deve ter sido uma variação da famosa “enquanto
você vai com o milho, eu já voltei com o fubá”, a única diferença sendo que a
frase clássica faz sentido, enquanto a releitura afirma que alguém foi a algum
lugar e, na sequência dessa ida, a minha mãe voltou de sei lá onde com uma
espiga de milho. Não sabemos onde a primeira pessoa da frase foi, o que
aconteceu com ela, de onde minha mãe teria voltado e, principalmente, o porquê
de ela ter voltado com um milho ser considerado algo relevante para a moral da
história.
Sol e chuva, casamento de macaco
Outra variação de um dito famoso, o clássico “sol e chuva, casamento de
viúva” ou “chuva e sol, casamento de espanhol”, existem inúmeras variantes ao
redor do mundo – geralmente com rimas que funcionam no respectivo idioma. Na
Polônia, por exemplo, dizem que quando chove e faz sol ao mesmo tempo, “Baba
Yaga (uma bruxa folclórica na Polônia, Rússia e outros países do leste europeu)
faz manteiga” e os franceses afirmam que “o diabo está batendo na esposa”. O
curioso é que por mais bizarro que possa soar em Português, algumas culturas de
fato têm a expressão de “macacos se casando”. Só que nenhuma delas integra os
países da ONU que formam a minha mãe. São eles: Quênia, Trinidad e Tobago, Índia,
Sudão, (só que aqui o macaco se casa com um asno) e África do Sul.
Curiosamente, existe uma expressão no Reino Unido que chama o fenômeno de “monkey’s
birthday” (aniversário do macaco), então minha dedução lógica é que minha mãe
ouviu a expressão inglesa e misturou com a brasileira para criar, sem saber,
uma expressão que é usada no Sudão.
Saco de batata não fica de pé
Uma expressão que sugere que a falta de uma alimentação adequada pode resultar
no comprometimento da capacidade física e resistência de uma pessoa, esta seria
uma versão repaginada da velha máxima “saco vazio não para em pé”. Lembro que
cheguei a discutir com minha mãe, argumentando que a frase dela não fazia o
menor sentido, porque se o saco estava cheio de batatas, isso significava
exatamente o oposto do que o saco vazio queria expressar, mas ela foi
irredutível e respondeu que “ninguém tá falando que o saco de batata está cheio
de batatas”. Ou seja, o que ela quer dizer é que um saco de batatas VAZIO não
fica de pé, o que é fundamentalmente a mesma expressão, mas contém um elemento
de qualificação do saco que tem o único propósito de gerar confusão e
dificultar o entendimento da frase. É como alguém dizer que “não há nada mais
pobre do que um banco” e rebater a provável argumentação de que a frase não faz
sentido com “sim, mas é que esse banco que estou dizendo na frase é um que
acaba de ser assaltado”.
Matou um coelho a sete paus
Minha favorita dentre todas, essa expressão é usada em situações onde
dois problemas são solucionados com uma única solução. Por exemplo, “Alceu era
apaixonado por carros antigos, mas não tinha dinheiro para comprar um Bentley.
Então matou um coelho a sete paus e comprou um Monza 84”. A expressão, claro, é
derivada da frase “matar dois coelhos com uma cajadada só”, só que no caso da
minha mãe, é um coelho só. Tudo bem que ela compensa essa defasagem numérica
inflacionando “uma cajadada só” para “sete paus”, mas eu acho que na verdade
isso é uma corruptela da expressão “sete palmos”, a medida tradicional em que
os mortos devem ser enterrados. Ou seja, todas as palavras estão até certo
ponto associadas – coelho morto com paulada e deve ser enterrado a sete palmos –
só que juntas ela não fazem o menor sentido, e muito menos sugerem que alguém
resolveu dois problemas com uma só solução. Tenho certeza de que minha mãe foi o primeiro
ser humano da história a usar essas seis palavras nessa ordem em particular,
porque não consigo imaginar um cenário possível que leve alguém a deduzir que “é...
ele matou um coelho a sete paus”.

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