7 de mai. de 2024

DE OLHO NO MEU RIDER

"Que foi? Nunca viram um chinelo?"

 

Quando tinha uns 13 ou 14 anos de idade, minha família se mudou para um apartamento novo que, diferente do que tínhamos até então, ostentava uma varanda e piscina – o que para mim era o máximo do luxo. Para melhorar, nossos quartos e a varanda tinham vista para a piscina, então não demorou para que eu percebesse as meninas bonitinhas, mais ou menos da minha idade, que vez ou outra desciam para tomar sol e dar seus mergulhos na piscina.

Um dia, decidi descer também para mostrar a elas o que milhões de anos de evolução eram capazes de produzir. Cheguei na piscina e mandei um “olá” discreto para elas, que responderam educadamente, e coloquei minha toalha em uma das cadeiras de praia que rodeavam a piscina. Foi aí que vi um par de chinelos e me toquei de que eu havia descido descalço, tendo esquecido os meus chinelos lá no apartamento.

Como eu precisaria deles para voltar até o elevador depois de sair da piscina, até pensei em voltar para o apartamento, mas como eu sabia que em determinado momento meu irmão menor, Uncle Bugz, iria aparecer na janela para observar minhas estripulias na piscina, eu raciocinei que poderia ser mais prático e rápido simplesmente pedir que ele jogasse os chinelos de lá de cima.

Então mergulhei na piscina com o máximo de graça e elegância e, logo na primeira vez que olhei para nossa varanda, vi o Uncle Bugz. Acenei para ele e falei num tom de voz ligeiramente mais alto – afinal, eu não queria ficar gritando na frente das meninas – que ele jogasse os chinelos na minha direção, um por um.

Ele sumiu brevemente e voltou com os chinelos na mão. Digo chinelos, mas na verdade eram aquelas horríveis aberrações de borracha preta tipo Rider, que pareciam ter sido produzidos com pneus reciclados e depois injetados com chumbo. Até hoje não sei por que eu usava aquilo em preferência às mais práticas – e leves – Havaianas, mas era o que tínhamos para o momento. Ele cuidadosamente jogou o primeiro, que caiu a cerca de um metro de onde eu estava e, provavelmente em virtude do chumbo, afundou como uma pedra até o piso da piscina.

Em retrospecto, o que eu deveria ter feito era simplesmente pescar o chinelo com o pé e colocá-lo na borda da piscina, mas devo ter pensado que mergulhar na água para pegá-lo com a mão traria um toque atlético à operação toda. Tipo “Nossa, olha, ele sabe mergulhar e ficar embaixo da água! Quem é esse cara? O Michael Phelps?”

Então lá fui eu, nadando como uma carpa num restaurante japonês, pegar meu chinelo no fundo da piscina. Feito isso, cheguei a superfície e tirei a água dos olhos, me virando para a direção da varanda com o intuito de avisar meu irmão que ele poderia jogar o segundo chinelo. Qual não foi minha surpresa – choque, melhor falando – ao perceber que, em vez da varanda do prédio, o que eu vi foi um projétil negro vindo em altíssima velocidade na direção do meu rosto. Em vez de simplesmente esperar que eu desse o sinal, o Uncle Bugz havia simplesmente decidido jogar o segundo chinelo no momento em que me viu chegando à superfície, e o resultado foi que esse leviatã de borracha preta, que havia sido arremessado de uma altura de 10 metros, se chocou violentamente contra meu olho.

Foi mais ou menos como levar uma coelhada da Mônica, se nesse dia a Mônica tivesse optado por usar um tijolo em vez do seu habitual coelho de pelúcia. O impacto me fez submergir na piscina novamente e, num misto de dor e espanto, soltei um longo e agonizante urro subaquático, que deve ter sido muito bem ouvido por todos (e todas) que estavam na piscina, já que o som se locomove muito mais rapidamente na água do que no ar.

Para piorar, ao fim do urro, lembrei que estava embaixo d’água e que precisava respirar. Subi desesperadamente até a superfície, saltando dramaticamente para fora da água na frente das meninas, boca aberta num grunhido inumano, um olho fechado e provavelmente já inchado, segurando um chinelo Rider na mão como se fosse uma arma branca.

Não lembro se elas gritaram em terror ou se isso foi só fruto da minha imaginação, mas me virei imediatamente e fui até a beira da piscina, pesquei o outro chinelo do fundo da água com o pé e me arrastei para fora piscina. Ainda tive a presença de espírito de murmurar alguma desculpa esdrúxula tipo “Nossa, olha a hora!”, como se alguém tivesse perguntado aonde eu ia, e saí andando com meus dois Riderzões nos pés, tentando manter alguma dignidade e assobiando como se nada tivesse acontecido.

E fiquei a tarde no aconchego do meu apartamento, com um saco de gelo no olho e a certeza de que esta breve incursão de 5 minutos tinha sido a primeira e última vez que eu usaria esta piscina na minha vida.

 

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