17 de jan. de 2026

MUDANÇA DE CASA E DE TRILHA SONORA

 

"Vamo lá galera, são quase 5 da manhã."

 

Uma das características mais marcantes de uma mudança de endereço é a diferença sonora do local, especialmente no período noturno ou matinal, quando a casa fica mais silenciosa e os ouvidos podem captar mais claramente o que ocorre lá fora.

 

Na nossa casa atual, para a qual mudamos depois de termos passado mais de 20 anos no mesmo lugar, tivemos algumas noites mal dormidas em virtude de sons que até então nunca tínhamos ouvido. Em especial, nossa caixa d’água.

 

Como estávamos em fase de pouca chuva, a empresa de água havia definido um racionamento no período noturno, essencialmente cortando o abastecimento de água entre 23h e 5h da manhã.

 

Ou seja, durante esse período, qualquer água usada viria diretamente da nossa caixa d’água, e não da rua. A caixa é grande, então nunca tivemos nenhum problema por causa desse racionamento – só o filtro da cozinha, que por algum motivo bizarro não funcionava enquanto o racionamento ocorria, o que nos obrigou a ter sempre uma jarra de água na geladeira e mais um galão na cozinha para o caso de alguém querer tomar um copo de água durante a noite.

 

Aí por volta das 4h30 a 5h, o abastecimento voltava ao normal, o que desencadeava na caixa d’água o que parecia ser um choque anafilático. Do nada, éramos acordados com um som de uma explosão de água, seguida por incontáveis pancadas violentas que, amplificadas pelo eco do sótão e intensificadas pelo silêncio absoluto que reinava nesse horário, pareciam anunciar a chegada do Armageddon.

 

Hoje já acostumamos com isso e entendemos que as pancadas são decorrentes da pressão da água e da boia se chocando na caixa, mas lembro da primeira vez que isso aconteceu, quando fui acordado no meio da madrugada pelo som do que parecia ser uma horda de Homens de Ferro caindo descontroladamente escada abaixo. E, pela demora – o evento todo levava de 3 a 4 minutos –a escada deveria ser uma escada rolante, porque a queda deles parecia nunca terminar.

 

De qualquer maneira, aos poucos fui me dando conta de que não tínhamos escada rolante em casa e que o Homem de Ferro não tinha a chave da porta (nem o controle do portão da garagem), então era improvável que o barulho fosse decorrente disso. Assim, algumas semanas depois, entendi que se tratava de algo na caixa d’água e, com o tempo, todos se acostumaram com esses surtos de madrugada, ao ponto de que nem notamos mais quando acontece.

 

Mas é caro que a trilha sonora de uma casa nova não se limita a mistérios noturnos.

 

Aliás, o maior mistério sonoro com o qual nos deparamos foi algo que não tinha horário para acontecer. Ouvíamos de manhã, de tarde, à noite, de madrugada... no horário mais aleatório e sem aviso prévio, o som aparecia.

 

Da primeira vez que ele se manifestou, estávamos jantando e de repente ouvimos um som muito alto que ecoou durante alguns segundos até sumir.

 

Era como se fosse o som de uma gigantesca baleia, um chamado tortuoso, angustiante, como de uma mitológica criatura colossal clamando por outra da sua espécie e se calando ao perceber que estava destinada a vagar pelo mundo eternamente sozinha.

 

Olhamos uns para os outros perplexos, nos perguntando o que tinha sido isso, até deduzirmos que provavelmente se tratava de alguma obra ou maquinário de grande escala. Mas esporadicamente o som aparecia de novo, sempre alto, imponente, melancólico.

 

O que poderia ser isso? O som aparecia nos horários mais improváveis, o que em tese fazia cair por terra a ideia de se tratar de uma obra, porque há leis que impedem o uso desse tipo de maquinário e afins no período noturno, mas o som era ouvido mesmo de madrugada.

 

Acabamos apelidando o som de “baleia urbana”, porque era exatamente o que parecia ser, uma baleia passeando despretensiosamente pela Vila Madalena e, de tempos em tempos, soltando seu chamado para alertar as outras baleias urbanas quanto à sua presença.

 

 “Uuuuuuuuuuuuuuóóóóóóóóóóóóóónnnnnnnn...”

 

Um único gemido, seguido por silêncio. De repente porque a baleia tinha entrado numa padaria para comprar pão, ou estava esperando o farol abrir. Sei lá.

 

Meu filho de 8 anos comentou uma noite que havia ouvido a baleia urbana na escola dele (que fica a 5 minutos da nossa casa) e alertou seus colegas quanto a ela. Quem sabe eles não contam isso para seus amigos, que contam para outros amigos, e daqui a algumas décadas a baleia urbana não entre para o folclore brasileiro ao lado da mula-sem-cabeça, a cuca ou o curupira?

 

Mas tudo mudou quando, um mês atrás, um amigo dos meus outros filhos veio com a resposta para o mistério que já durava 3 anos.

 

Apesar de nossa casa estar relativamente longe do Aeroporto de Congonhas, ela está justamente na rota de várias aeronaves que pousam lá. O amigo dos meus filhos disse que, quando os flaps de determinados modelos de avião são acionados durante o processo de descida e frenagem, o aumento brutal na fluxo de vento pode causar um grande ruído, que seria condizente com essa nossa baleia urbana.

 

Então passamos a prestar atenção cada vez que detectávamos o som e, tiro e queda! O som estava sempre acompanhado pelo som das turbinas de um avião e, à medida que o avião passava sobre nós rumo a Congonhas, o som do avião ia sumindo e o mesmo ocorria com o tal chamado da baleia urbana.

 

O imponente cetáceo terrestre que rondava as charmosas vias da Vila Madalena como um grande, enorme, imenso, cachorro de rua, nada mais era do que o barulho do vento se chocando contra placas de aço, 300 metros acima do solo. Mas é claro que os amiguinhos do meu filho na escola não precisam saber disso.

 

Mudando de criaturas do mar para criaturas do ar, uma coisa que me impressionou muito quando mudamos para a casa nova foi o quanto a paisagem sonora formada pela avifauna varia de um local para o outro. Nossa casa fica a literalmente 3 km da casa antiga, mas o som dos pássaros é completamente diferente. 

 

Tudo bem que estávamos em um apartamento, e agora estamos em uma casa, e estávamos em um bairro residencial e agora somos vizinhos de um parque, mas eu não imaginava que iríamos ter uma diferença tão colossal.

 

Dá até para detectar até alguns hábitos migratórios. Por exemplo, por volta de agosto ou setembro, aparece um pássaro chato que se esgoela incessantemente até dezembro, e depois some até o ano seguinte.

 

Tentei identificar o pássaro pelo canto, mas nada do que achei foi muito conclusivo. Parece se tratar de uma espécie de sabiá, que costumam ter esses cantos repetitivos com frases musicais distintas, mas não consegui identificar na internet a espécie de forma precisa (e olha usei até o Chat GPT pra tentar achar).

 

Pelo canto, acabamos apelidando ele de “Pássaro Datena”, porque ele parece enunciar a frase “Quem é Datena?” e apareceu pela primeira vez logo antes da eleição para prefeito de São Paulo, em 2024, quando o apresentador foi candidato.

 

Consegui gravar o canto dele e montei um videozinho para quem quiser conferir o canto dele (observem que o pássaro utilizado no vídeo é para efeitos meramente ilustrativos, porque nunca vi o Pássaro Datena, só ouvi).


Agora imaginem isso sendo urrado na sua janela logo cedo e depois repetido ao longo do dia todo. É quase como aquela criança pequena no carro que fica entoando a cada 3 minutos: “Já estamos chegando?” só que numa versão com penas, e sem carro.

 

Uma vez, quando estava concentrado e tendo que trabalhar, o pássaro começou seu angustiante mantra:

“Quem é Datena? Quem é?? Quem é Datena?”

 

Enfurecido por não conseguir me concentrar no meu trabalho, saí até o quintal, olhei para cima e gritei: “É candidato a prefeito! Ele tem um programa de TV também. Na RedeTV, se não me engano. É o cara que jogou a cadeira no Marçal! Sabe o Marçal?”

 

Por um breve instante, nada aconteceu. E por esse breve instante, parecia que o bicho tinha absorvido a resposta e havia saciado sua sede por conhecimento político. Imaginei ele pensando: “Ahhh... ESSE que é o Datena que tá todo mundo falando! Sim, claro. Faz sentido.”

 

Mas aí, enquanto eu estava me preparando para responder a próxima pergunta dele, talvez sobre a filiação política do candidato ou talvez para saber mais esclarecimentos sobre a cadeirada no Pablo Marçal, veio um sonoro “QUEM É DATENA? QUEM É??”, o que revelou o que eu no fundo já sabia: o pássaro não estava genuinamente interessado em aprender, só queria encher o saco mesmo.

 

Então voltei para o escritório, coloquei meus fones de ouvido e tentei achar refúgio em heavy metal e trabalho, esperando que os hábitos migratórios do pássaro levassem essa peste a indagar sobre a identidade do Datena em outra região do Brasil.

 

E esse episódio me lembra de outro, que ocorreu uns 20 anos atrás, quando mudamos para o apartamento que mencionei anteriormente. Tínhamos acabado de casar e estávamos ainda nos adaptando ao cenário sonoro do bairro, quando de manhã um bem-te-vi começou a cantar perto da janela do nosso quarto.

 

Ele repetiu a sua icônica frase várias vezes, o que fez com que a Carla mencionasse: “Nossa, que passarinho mais escandaloso!”

 

Eu respondi: “Sim, mas você sabe que pássaro é esse, né?”

 

 “Não, qual é?”

 

“Bom, o nome dele é o canto dele. Se você prestar atenção, ele tá dizendo o nome dele ao cantar.”

 

Ela parou e ouviu o canto mais algumas vezes, compenetrada. Aí se virou pra mim e, com um olhar incrédulo, falou: “Fi-fo-fem?!”

 

 

 

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