18 de mai. de 2014

A PARTE MAIS DIFÍCIL DE QUALQUER VIAGEM É A VOLTA

"Depois que comprei meu helicóptero, perdi 18kg, completei a maratona 
de Nova Iorque e cheguei em 3° no Ironman de Kona em 2013." 
  

Há algum tempo, dois amigos que haviam estudado comigo na escola decidiram montar um negócio inusitado – uma agência de viagens personalizadas, aliando um cunho ecológico com uma estrutura de altíssimo padrão. Na época, eu e mais dois sócios tínhamos uma agência de comunicação, e meus amigos nos procuraram atrás de ajuda para montar a parte criativa do site da empresa. Topamos, claro, e na hora do briefing, eles sugeriram algo mais imersivo, para que pudéssemos realmente entender o que estava sendo oferecido:

“Por se tratar de um produto sem similares no mercado, eu acharia muito importante que vocês vivenciassem um exemplo do que é nossa empresa. Podemos nos encontrar no Aeroporto de Congonhas neste sábado, 7 da manhã, e vocês passariam um dia com a gente em Angra dos Reis sentindo na pele o que estamos oferecendo ao público. O que acham?”

Concordamos e, pontualmente às 7 da manhã do sábado, lá estava eu, acompanhado por um dos meus sócios – o Milson – no aeroporto.
Até como parte da experiência, nossos amigos haviam contado muito pouco sobre o que o dia reservava para nós, então a primeira surpresa veio logo de cara: seguimos a uma área especial do aeroporto até chegarmos a um enorme e surpreendente helicóptero, que descobrimos estava apenas esperando pelo nosso embarque. Além de nós, embarcaram meus amigos, dois colegas deles, a sócia e seus filhos pequenos, com idade entre 8 a 10 anos, o que por si só indica o tamanho da aeronave.

O helicóptero levantou voo e tivemos uma visão aérea da cidade de São Paulo geralmente restrita àquela parte da população que decide ser repórter de trânsito ou ter MUITO DINHEIRO. Cerca de uma hora e meia depois, sobrevoávamos Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, e já estávamos completamente deslumbrados com a beleza natural quase virgem da região.

O helicóptero pousou suavemente em um heliporto que ficava no topo de uma colina, próxima a uma belíssima casa de estilo colonial. Descemos a pé por uma estradinha íngreme que descia em espiral pela colina e, alguns minutos depois, estávamos tomando um delicioso café da manhã na casa enquanto conversávamos sobre a programação para o dia.

Começou com uma caminhada até a praia privativa do local. De lá, seguimos por uma trilha quase imperceptível pela mata, nos sentindo como verdadeiros bandeirantes (menos aquela parte de surrupiar a riqueza natural brasileira em nome da Coroa Portuguesa e sair degolando índios). 

É válido notar que, naquela época, eu não estava exatamente no primor de meu condicionamento físico (pensando bem, acho que a última vez em que estive realmente no primor da minha forma foi quando ainda era um espermatozoide e consegui derrotar os outros milhões de rivais na corrida ao óvulo. E, mesmo naquela ocasião, suspeito que deve ter havido algum problema generalizado, blitz da polícia, jogo do Brasil ou algo assim que impediu os outros de chegarem lá antes de mim).

Mas, como meus amigos sabiam disso – ou simplesmente pelo fato de que havia CRIANCINHAS DE 10 ANOS com a gente – a trilha não apresentou muitas dificuldades.

De repente, a densa folhagem deu espaço a uma belíssima praia completamente deserta, com águas azul-opala (a pedra, não o carro) e uma barreira de pedras que elegantemente escondia a praia à nossa esquerda. Ficamos alguns minutos contemplando os quilômetros de areia branca à nossa direita, sentindo uma sensação de exclusividade quase Robinsoe-Cruisoeana.

Depois seguimos nossos amigos por um caminho tortuoso entre as pedras, sem imaginar o que nos esperava do outro lado da barreira rochosa. Felizmente, sem nenhum tipo de escorregão ou perda de equilíbrio, consegui completar o percurso sem deixar meio quilo de pele de canela na áspera superfície das pedras e, do outro lado, encontramos um discreto pier, servindo de estacionamento para uma não tão discreta lancha branca.

A lancha cortou o mar em alta velocidade, nos proporcionando um tour por quilômetros e quilômetros de praias inexploradas, o vento e o spray salgado das ondas acrescentando uma sensação de liberdade indescritível. Paramos no outro lado da ilha, onde um pequeno quiosque esperava por nós com uma mesa já preparada para o almoço. Me deliciei com moquecas de peixes e frutos do mar, embalado pelo inebriante som das ondas e do canto de pássaros que nunca havia ouvido, como a araponguinha-de-rabo-preto, o mergulhão pompom, o trinta-réis-de-bico-vermelho e outras aves tão características da região de Angra dos Reis (Duvida? Google it).

De lá, a lancha nos levou de volta à casa para que pudéssemos nos preparar para o retorno a São Paulo. Sentamos no amplo terraço do local, conversando sobre nossas percepções e esboçando uma estrutura para o site, quando apareceu o motorista indagando se alguém queira uma carona até o heliporto.

As crianças saíram em disparada e se arremessaram dentro do carro com sua mãe, enquanto nós, envolvidos no nosso papo, dispensamos o motorista, dizendo que preferíamos fazer o percurso a pé. Não sei como isso é possível, porque o motorista não esboçou nenhuma reação, mas eu tenho CERTEZA que ele riu por dentro quando eu confirmei que iria seguir a pé. É verdade que, àquela altura, mesmo que ele tivesse se jogado no chão gargalhando, eu provavelmente não teria entendido o porquê. Hoje eu entendo.

O carro saiu acelerando rumo ao heliporto e um dos meus amigos se levantou, dizendo que achava melhor ele ir também para ajudar nos preparativos da viagem de volta. Como eu já havia preparado minhas coisas, me ofereci para ir com ele e os outros combinaram de subir até o heliporto em 5 minutos.

E lá fomos nós dois subindo pela estradinha em espiral rumo ao helicóptero, conversando animadamente sobre o que faríamos no site, sobre possíveis oportunidades e próximos passos. Ele ditava o ritmo e, à medida que progredíamos rumo ao topo, me dei conta de que a conversa estava se tornando um monólogo, com só ele falando e eu me limitando a respostas do tipo “u-hum”, “é” e “hm...”.

Foi só quando ele disse, ofegante, que “Hehe... eu sempre esqueço o quanto essa subida é íngreme!” que me dei conta de duas coisas muito importantes.

Uma delas foi que ele era, e sempre havia sido, um atleta. Estava sempre envolvido em tudo quanto é esporte na escola, continuava em forma e praticava esportes de maneira regular. COM CERTEZA ele teria vencido a corrida comigo na época em que eu era espermatozoide e, se ELE já estava ficando ofegante com a subida, eu já deveria estar clinicamente morto.

A outra coisa que percebi foi que eu não sentia mais minhas pernas. Acho que meu cérebro nunca imaginaria que eu sujeitaria meu corpo a um exercício tão intenso, então deve ter entrado num modo de negação e simplesmente se recusado a acreditar que isso estava ocorrendo. Imagino que os músculos da minha perna devem ter falado com o cérebro logo no primeiro passo ainda base da colina, algo do tipo “Ei. O que tá acontecendo aqui? O cara não tá pensando em fazer isso até lá em cima, tá?”, ao qual o cérebro deve ter respondido “Não, claro que não. Ele nunca correu mais do que 100 metros na escola, e isso numa superfície plana! Acham que ele vai sair fazendo cooper vertical assim, de uma hora pra outra?! Claro que não! Relaxem!”

Aí as pernas continuaram subindo, passo após passo, acreditando que isso não estava acontecendo de verdade. Até que de repente o cérebro percebeu que eu havia subido ¾ de uma subida RIDICULAMENTE íngreme com o mesmo ritmo de um triatleta. E aí deve ter gritado com uma vozinha histérica para o corpo todo “NÓS VAMOS MORRER! NÓS VAMOS MORRER! SHUT DOWN NOW!” e minhas pernas simplesmente pararam.

De alguma maneira, em meio à agonia de ter levado meu corpo exponencialmente além do limite, também percebi que teria que preservar um mínimo de dignidade, então evitei sucumbir à tentação de “sugerir” que ele me carregasse pelo resto do caminho, mas ao mesmo tempo estava ciente de que teria que dar alguma justificativa pela minha súbita parada. Então falei: “Ô, sabe duma coisa? Lembrei que tenho que falar um negócio importante pro Milson! Vai indo na frente que eu te encontro em 2 minutos.”

Provavelmente ele estava cansado demais para pensar no quanto isso soava estúpido, porque apenas balbuciou um “ok” e seguiu subindo pela colina.

Olhei enquanto ele se afastava pela curva até perdê-lo de vista, e fiquei parado, pensando, com meu coração batendo como se fosse o Olodum tropeçando durante um ensaio e rolando Pelourinho abaixo.

Como estava claro que passos adiante não eram mais uma opção, tive uma ideia: evidentemente eu havia levado os músculos da minha perna para muito além do limite, mas SÓ os músculos necessários para me impulsionar adiante. Os músculos que me impulsionariam para trás seriam outros, e estes estariam descansados. Ou seja, era só eu subir o que restava da ladeira DE RÉ que eu ainda teria forças para chegar ao topo.

Na teoria, não tinha porque não funcionar. Restava apenas a parte prática, e para isso eu teria que virar até ficar de costas para a subida. E eu não conseguia mexer minhas pernas.

Pensei em sentar no chão, rodar na minha bunda até ficar de costas para o topo, e depois me levantar. Mas eu sabia que seria impossível levantar uma vez que tivesse sentado. Então decidi usar minha perna esquerda como se fosse a parte central de um relógio, para depois CARREGAR minha outra perna com as mãos no sentido anti-horário até conseguir fazer uma meia volta e ficar de frente para a descida.

Era só levantar a perna direita e dar um impulso para a esquerda, dando a meia volta de uma só vez, numa espécie de releitura bizarra de uma demi-pirouette numa apresentação de ballet (vejam a representação gráfica abaixo).  


Na prática, quando usei toda minha força para levantar minha perna, ela de fato se moveu para a esquerda, mas foi só um pouquinho – o equivalente à distância percorrida por 5 minutos num relógio. Tentei de novo, com toda minha força, e avancei mais um pequeno segmento do círculo à esquerda. Ia ser mais difícil do que eu havia imaginado, mas pelo menos ia funcionar. Na hora não pensei nisso, mas eu estava dando um novo significado à famosa expressão “tendo que se virar sozinho”.

Continuei fazendo isso mais algumas vezes, torcendo para conseguir me virar totalmente antes que os outros que haviam saído da casa depois de nós me alcançassem. E após várias tentativas, um pouquinho de cada vez, finalmente consegui. Lá estava eu, de costas para o topo da colina, que àquela altura já parecia mais desafiadora que o K2.

Não passaram nem 10 segundos e vi os outros subindo até onde eu estava, todos com um aspecto de desespero pelo esforço de escalada. Fiquei lá, olhando para eles, enquanto todos chegavam até onde eu estava, passavam por mim como se eu fosse um poste, e sumiam atrás de mim rumo ao heliporto.

Confesso que me magoou um pouco o fato de ninguém ter ao menos PERGUNTADO o que eu estava fazendo aí parado, de cara para eles. Mas acho que o esforço era tanto que a mera ideia de falar já havia sido percebido pelo cérebro deles como um péssimo gerenciamento de recursos, então todos mantiveram um silêncio sepulcral ao me ultrapassar na estradinha e, mais uma vez, lá estava eu sozinho.


Um pouco depois, com meu coração batendo num ritmo mais normalizado, decidi que era hora de continuar a jornada. Tentei dar um passo para trás e, para minha surpresa, deu certo! Tentei dar um segundo passo, e tive êxito novamente. E mais um, e mais um. Eu estava indo para cima!

Minha felicidade de saber que eles não teriam que mandar gente com cabos para me rebocar como uma baleia encalhada foi tamanha que nem pensei no ridículo que seria ser visto por todos chegando ao heliporto de ré. Se bem que, na verdade, nem precisei me preocupar com isso porque estava todo mundo tão fisicamente exausto pela subida, que eu poderia ter feito o trecho final dando uma série de saltos mortais duplos que mesmo assim ninguém teria percebido. E também teria sido uma PÉSSIMA ideia dar saltos mortais duplos perto de um helicóptero em funcionamento, então fico feliz de ter resistido à tentação.

Só uns 10 minutos depois que o helicóptero havia decolado que conseguimos falar novamente, e foi aí que o Milson me confessou seu desespero ao me ver parado na subida: "Te vi parado lá, olhando pra gente com os olhos arregalados e ar de desespero, aí comecei a rezar pra que você não caísse e viesse rolando na nossa direção, porque se isso acontecesse você levaria todo mundo lá pra baixo junto com você, e ai a gente teria que começar tudo de novo."

Pelo visto a reza deu certo, porque eu não caí e todos conseguiram passar por mim sem qualquer tipo de incidente.

 E, depois de contar o ocorrido para outras pessoas, me dei conta do quanto essa história fica patética se contada de forma resumida: “Fomos de helicóptero para Angra, passamos o dia em praias paradisíacas, andamos de lancha, desbravamos trilhas por matas intocadas pelo homem, comemos do bom e do melhor... mas quase morri no final porque você acredita que eles me fizeram ANDAR até o helicóptero?!”

É mais ou menos como ficar resmungando depois de ter ganho na Mega Sena porque querem que você vá ATÉ O BANCO retirar o prêmio.

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