17 de jan. de 2026

MUDANÇA DE CASA E DE TRILHA SONORA

 

"Vamo lá galera, são quase 5 da manhã."

 

Uma das características mais marcantes de uma mudança de endereço é a diferença sonora do local, especialmente no período noturno ou matinal, quando a casa fica mais silenciosa e os ouvidos podem captar mais claramente o que ocorre lá fora.

 

Na nossa casa atual, para a qual mudamos depois de termos passado mais de 20 anos no mesmo lugar, tivemos algumas noites mal dormidas em virtude de sons que até então nunca tínhamos ouvido. Em especial, nossa caixa d’água.

 

Como estávamos em fase de pouca chuva, a empresa de água havia definido um racionamento no período noturno, essencialmente cortando o abastecimento de água entre 23h e 5h da manhã.

 

Ou seja, durante esse período, qualquer água usada viria diretamente da nossa caixa d’água, e não da rua. A caixa é grande, então nunca tivemos nenhum problema por causa desse racionamento – só o filtro da cozinha, que por algum motivo bizarro não funcionava enquanto o racionamento ocorria, o que nos obrigou a ter sempre uma jarra de água na geladeira e mais um galão na cozinha para o caso de alguém querer tomar um copo de água durante a noite.

 

Aí por volta das 4h30 a 5h, o abastecimento voltava ao normal, o que desencadeava na caixa d’água o que parecia ser um choque anafilático. Do nada, éramos acordados com um som de uma explosão de água, seguida por incontáveis pancadas violentas que, amplificadas pelo eco do sótão e intensificadas pelo silêncio absoluto que reinava nesse horário, pareciam anunciar a chegada do Armageddon.

 

7 de mai. de 2024

DE OLHO NO MEU RIDER

"Que foi? Nunca viram um chinelo?"

 

Quando tinha uns 13 ou 14 anos de idade, minha família se mudou para um apartamento novo que, diferente do que tínhamos até então, ostentava uma varanda e piscina – o que para mim era o máximo do luxo. Para melhorar, nossos quartos e a varanda tinham vista para a piscina, então não demorou para que eu percebesse as meninas bonitinhas, mais ou menos da minha idade, que vez ou outra desciam para tomar sol e dar seus mergulhos na piscina.

Um dia, decidi descer também para mostrar a elas o que milhões de anos de evolução eram capazes de produzir. Cheguei na piscina e mandei um “olá” discreto para elas, que responderam educadamente, e coloquei minha toalha em uma das cadeiras de praia que rodeavam a piscina. Foi aí que vi um par de chinelos e me toquei de que eu havia descido descalço, tendo esquecido os meus chinelos lá no apartamento.

Como eu precisaria deles para voltar até o elevador depois de sair da piscina, até pensei em voltar para o apartamento, mas como eu sabia que em determinado momento meu irmão menor, Uncle Bugz, iria aparecer na janela para observar minhas estripulias na piscina, eu raciocinei que poderia ser mais prático e rápido simplesmente pedir que ele jogasse os chinelos de lá de cima.

Então mergulhei na piscina com o máximo de graça e elegância e, logo na primeira vez que olhei para nossa varanda, vi o Uncle Bugz. Acenei para ele e falei num tom de voz ligeiramente mais alto – afinal, eu não queria ficar gritando na frente das meninas – que ele jogasse os chinelos na minha direção, um por um.

19 de jul. de 2017

OS DITADOS NÃO TÃO POPULARES DE DONA IRENE


"Olha! Aquele saco tá vazio, mas continua de pé!"
"Ah sim, é que não é um saco de batatas."
"Ah é, tá explicado."


Nascida em uma área de ocupação francesa em Xangai, na China, para depois passar a infância na Indonésia, a adolescência no colégio britânico em São Paulo e com passagens por Londres e Bogotá, na Colômbia, onde trabalhou em um restaurante russo, minha mãe é uma espécie de personificação humana da ONU.

Essa mistura de países, experiências e histórias rendeu à minha mãe uma bagagem cultural muito interessante, mas mais do que isso, deu a ela o que eu considero ser uma de suas facetas mais identificáveis: um acervo de ditos populares (ou, para ser mais preciso, “ditos populares” entre aspas).

Como criança, nunca vi nada de errado nos ditados que minha mãe entoava pela casa, e até replicava eles na escola, como pequenas pérolas de sabedoria em meio a colegas boquiabertos. Foi só aos poucos que comecei a desconfiar que talvez meus amigos não estivessem boquiabertos pelo poder e grandiloquência das expressões que eu proferia, mas sim pela completa falta de entendimento do que eu estava tentando dizer com aquilo.

18 de mai. de 2014

A PARTE MAIS DIFÍCIL DE QUALQUER VIAGEM É A VOLTA

"Depois que comprei meu helicóptero, perdi 18kg, completei a maratona 
de Nova Iorque e cheguei em 3° no Ironman de Kona em 2013." 
  

Há algum tempo, dois amigos que haviam estudado comigo na escola decidiram montar um negócio inusitado – uma agência de viagens personalizadas, aliando um cunho ecológico com uma estrutura de altíssimo padrão. Na época, eu e mais dois sócios tínhamos uma agência de comunicação, e meus amigos nos procuraram atrás de ajuda para montar a parte criativa do site da empresa. Topamos, claro, e na hora do briefing, eles sugeriram algo mais imersivo, para que pudéssemos realmente entender o que estava sendo oferecido:

“Por se tratar de um produto sem similares no mercado, eu acharia muito importante que vocês vivenciassem um exemplo do que é nossa empresa. Podemos nos encontrar no Aeroporto de Congonhas neste sábado, 7 da manhã, e vocês passariam um dia com a gente em Angra dos Reis sentindo na pele o que estamos oferecendo ao público. O que acham?”

Concordamos e, pontualmente às 7 da manhã do sábado, lá estava eu, acompanhado por um dos meus sócios – o Milson – no aeroporto.

7 de fev. de 2014

PERDIDO NA GROENLÂNDIA

 
"Oi Zé, tô quase chegando, não tô mais, tô quase chegando, não tô mais, 
tô quase chegando, não tô mais, tô quase chegando, não tô mais, 
tô quase chegando, não tô mais... 



Nada mais natural do que você se sentir meio perdido em um local que não conhece. Tipo no meio da Groenlândia, por exemplo. Por outro lado, a sociedade tende a condenar pessoas que se perdem em locais que elas passam todos os dias durante uma década, ainda mais quando o local em questão fica a quadras da sua casa. Tipo a Rua Groenlândia, no bairro dos Jardins em São Paulo.

Evidentemente, não me enquadro no primeiro tipo de pessoa, visto que nunca fui – e confesso que acho muito improvável que algum dia eu vá – para a Groenlândia. Mas eu de fato morava no Itaim Bibi, praticamente numa travessa da Av. Nove de Julho, que é perpendicular à Rua Groenlândia, e pegávamos essa rua diariamente no caminho de volta da escola. 

Eis que um dia, meu amigo Joe Matthews, que para preservar sua identidade será chamado de Zé neste relato, me convidou para passar o sábado na casa dele.

19 de dez. de 2013

A VIDA COMEÇA A QUEBRAR AOS 40

"Então, Sr. Brown... o Raio X indica que o senhor pode 
ter sofrido uma pequena fratura no... ehm... corpo."


Sempre me gabei de nunca ter quebrado nenhum osso no meu corpo ao longo de 40 anos de vida.

“Mas nem a perna ou o braço quando você era moleque?” perguntam.
“Não, nem a perna ou o braço quando eu era moleque. Nada.”

Aliás, essa coisa de não quebrar o braço na época da escola é quase um arrependimento, porque sempre quis ter um daqueles gessos todos assinados, como era de praxe na época.

Mas o fato é que, até os 40 anos, não havia quebrado nem mesmo o estribo, o menor dos ossos no corpo humano.

Não sei se estou citando corretamente ou se erro de década, mas acho que dizem por aí que a vida começa aos 40. Aparentemente, no meu caso ela começou a se despedaçar, porque num período de 2 meses eu quebrei o tálus, no tornozelo, e depois o úmero, aquele osso que fica entre o cotovelo e o ombro.

4 de dez. de 2013

O DIA EM QUE MEU PAI, O UNCLE BUGZ E EU DETONAMOS O STEVE JOBS

 
Tela do jogo Taipan!, para o Apple ][+, em que o personagem Elder Brother Wu
devia tanto para a gente que mesmo que ele vendesse as próprias calças (para
efeito de simulação, vamos considerar que as calças dele custassem $100,00),
ele teria que vender 1.000.000.000.000.000.000.000 de suas próprias calças
para saldar a dívida.


Era uma vez, há muitos e muitos anos, um Natal em família em que meu pai chegou com um presente absolutamente espetacular: um computador.

Estou falando do começo da década de 80 e computador era algo incrivelmente “pustaqueospariu!”.

Era uma época em que CD, MP3, celular, controle remoto, fax, DVD, internet e milhares de coisas que hoje fazem parte do nosso dia-a-dia eram, na melhor das hipóteses, delírios de um autor de ficção científica. Aliás, era uma época em que ainda nem haviam inventado algumas das coisas que já fazem parte do nosso passado, como pagers e videocassetes.